Início Comportamento Onde há gentileza a violência não mora.

Onde há gentileza a violência não mora.

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Quando assumi a direção de uma escola Municipal fiquei super preocupada com o nível de violência e grosseria com que os alunos se tratavam. Não, eu não concordo com grosseria e muito menos com violência. Qualquer coisa que era cobrada era recebida com extrema grosseria, tanto pelos alunos quanto pelos pais dos alunos. A comunidade escolar estava acostumada a chegar na escola e fazer valer a sua opinião. A equipe diretiva que foi comigo para assumir a escola ficou com medo do nível de violência e grosseria com que fomos recebidos. Mesmo sabendo que nada se consegue de repente ficamos apreensivos e decidimos adotar algumas estratégias para tentar sanar o problema.


Pesquisamos na internet formas de realizar um projeto juntamente com os professores da escola e, nos deparamos com a história do profeta Gentileza. Aconteceu um grande incêndio no mundo circense em 1961 e mais de quinhentas pessoas morreram, dentre elas, muitas crianças. José acordou, seis dias após o ocorrido relatando ouvir vozes que o mandavam procurar se dedicar ao mundo espiritual e abandonar o mundano. Ele então decidiu plantar hortas e jardins sobre os escombros desta tragédia em Niterói. Lá ele fixou residência por quatro anos e peregrinava todos os dias, admoestando as pessoas com palavras de bondade, de consolo e de esperança. José foi um consolador, trazendo alento e bondade para todos os familiares que foram acometidos por tão terrível catástrofe. O povo começou a chamá-lo de “José Agradecido”, ou “Profeta Gentileza”.
José oferecia, em gesto de gentileza, flores e rosas para as pessoas que atravessavam seu caminho nas ruas do Rio de Janeiro.

Após definidas várias estratégias os professores começaram a trabalhar nas turmas sobre o efeito que tem um bom dia, um obrigado, um por favor, um com licença. Começaram desde os primeiros anos iniciais a falar sobre valores, sentimentos e como podemos tornar um mundo melhor com nossas atitudes. Aos alunos das turmas maiores foi proposto, após muitos debates, fazerem cartazes recepcionando os colegas na entrada, na hora do recreio, na saída. Nestes cartazes confeccionados por eles tinha frases do tipo: “Você já deu um abraço hoje? Pois então… agora é a hora! ” – “Dê um beijo na testa em quem está segurando este cartaz!” – “Seja gentil com o seu próximo e lhe dê um sorriso!” – “Trate aos outros como gostaria de ser tratado!” e assim por diante. Os alunos confeccionaram flores de papel, fizemos uma arrecadação de balas e pirulitos e na entrada os alunos distribuíam. Aos poucos a comunidade começou a ficar mais receptiva e menos violenta.


Uma professora começou uma campanha para “PEGUE O QUE PRECISA E DOE O QUE NÃO PRECISA” e toda a comunidade escolar foi contemplada com roupas, brinquedos, sapatos que não usavam e poderiam passar ou trocar. Com parte das verbas recebidas fui adquirindo para a escola mesas de fla-flu, mesas de aero hockey, mesas de tamancobol e de tênis e a hora do recreio foi se transformando e, onde era uma arena todos os dias, que aconteciam brigas e desentendimentos entre os alunos hoje é um palco de jogos e parcerias. Os alunos menores tinham recreio orientado por alunos maiores que se dispunham a cooperar.


Hoje, após quatro anos, com o engajamento da Professora Cinara Ribeiro, da disciplina de Educação Física, e dos demais professores da escola, o recreio monitorado está acontecendo no contra-turno, onde alunos dos oitavos e nonos anos veem trilhar corda, contornar obstáculos, constroem circuitos e resgatam as lindas cantigas de roda. É sensacional o crescimento da escola onde a parceria entre todos gera a gentileza. Foi nascendo uma cumplicidade entre os alunos, claro que há problemas ainda, mas este projeto está sendo implantado há quatro anos e tem obtido bons resultados. A cada crítica que recebíamos devolvíamos com a seguinte resposta: – “De que forma você pode contribuir para que tal coisa melhore?”

Rejane Regio