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O inventário da minha mãe

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Chega aquele dia que nós nunca falamos, evitamos pensar nele e escutar sobre ele. Mas, por mais que protelemos ele acontece para todos, indistintamente, pobre ou rico, bonito ou feio, alto ou baixo, gordo ou magro, negro ou branco; cada um a seu tempo. E o dia mais temido da minha vida chegou, numa noite de inverno, quando minha mãe passou mal e foi internada as pressas e, infelizmente, veio a óbito em menos de vinte e quatro horas. Vem o choque, as pessoas na volta, toda a papelada para colocar nosso ente querido em um lugar definitivo. Isso mesmo, sua última morada. Vem a tristeza, a amargura, as lágrimas, o desespero e a certeza que nada mais será como antes na nossa vida. Nossa raiz, nosso cordão umbilical definitivamente foi cortado pois não ouviremos mais o chamado do nosso nome, os conselhos, as admoestações, as risadas e as queixas. Sim, nunca mais poderemos chamar alguém de Mãe com aquela tranquilidade que vem de pequena, de saber que nosso chamado será atendido, que nossas queixas serão ouvidas e que nossas doenças e enfermidades serão curadas com aquele: – “Toma isso pela Vontade de Deus que você vai ficar bem! Mas toma tudo heim? sem cara feia!” E então você aprende a passar os dias e chega a parte de separar as coisas, os objetos pessoais, as contas da pessoa, sim, porque a conta da luz, água e telefone não deixam de chegar. Como mexer naquilo que foi significativo para a pessoa mais importante da sua vida? Como dividir com sua irmã as coisas de sua mãe? Eu fico com os pratos e você fica com as xícaras! Eu fico com o sofá e você com a mesa e cadeiras! Tudo muito difícil, pois você sabe que a cada olhada para aquele objeto vai remeter a sua mãe e por mais que ela tenha sido uma pessoa maravilhosa para você, virá a tristeza e a certeza que ela nunca mais voltará. E as roupas e calçados? você pensa, como vou dar para um conhecido e ver a pessoa andando com as roupas que um dia foram dela. E para a pessoa desconhecida: será que ela vai cuidar? E aí você lembra que são apenas bem materiais e que daqui não levamos nada, a não ser o que deixamos no coração das pessoas. Sim, nossa mãe se foi e, junto com ela foram aquelas palavras tão lindas também: AVÓ! Sim, minha mãe tinha tido três netos e tinha sido uma ótima avó, daquelas que se preocupava e presenteava com os regalos para comprar um lanchinho. Tenho consciência que estamos somente de passagem nesta vida e que um dia nos encontraremos e, fica a certeza de que ela, minha mãe, foi uma pessoa bondosa, honesta e ensinou a respeitar ao próximo como a nós mesmos. Sei que minha vida nunca mais será a mesma e que sempre faltará um pedaço e falo constantemente com meus filhos e esposo sobre o que eu quero que aconteça quando o meu dia chegar, falo sem tristeza, com convicção que nada daqui levaremos a não ser, como já disse: O amor que espalhamos e ensinamos!

escrito por Rejane Regio